
Foto – Maurício Valadares
A idéia de fazer uma nova turnê com os Paralamas do Sucesso surgiu, se bem me recordo, de uma conversa entre as duas bandas no bar de um hotel em Porto Alegre. Depois desse primeiro encontro muitos meses se passaram mas a verdade é que ninguém conseguia esquecer a promessa do Zé Fortes (empresário dos PDS) de viabilizar aquele delírio.
– "Tá legal! só tem uma coisa: se a gente for fazer, temos a obrigação de fazer direito" - dizia ele.
Hoje é possível afirmar que o projeto (que a aquela altura era apenas uma possibilidade remota) não só se tornou realidade como é também um grande sucesso.
Apesar do esquema promocional, até agora, ter sido relativamente modesto e da imprensa, salvo honrosas exceções, ter tratado do assunto com bastante descaso, em Salvador e São Paulo tocamos para casas com lotação esgotada e em BH e Sorocaba se não foi assim, foi quase isso.
É impossível apontar categoricamente o que tem mobilizado o público a comparecer em massa a esses shows mas acredito que isso se deva fundamentalmente ao fato de que, de alguma maneira, as pessoas se deram conta de que estamos apresentando algo realmente novo. É óbvio que o repertório é o mesmo que todos cansaram de ouvir mas o fato de termos, praticamente, fundido uma banda à outra é, com certeza, inédito.
Não lembro de duas bandas ( brasileiras ou gringas ) que tenham se proposto a tocar dezoito músicas ( o show do Police, por exemplo, tem vinte ao todo ) juntas. Isso sem contar as participações menores de uns no set dos outros. Só por conta desse aspecto as canções já soariam bem diferente das versões originais, mesmo assim em algumas delas fomos além, mudando totalmente o caráter dos arranjos.
Talvez mais importante que isso seja a constatação de que, como comentaram alguns fãs, estamos NOS divertindo e não só divertindo o público. A química , o respeito e amizade que há entre as duas bandas parece contagiar a platéia desde o primeiro instante do espetáculo.
Com apenas quatro shows no currículo já registrei momentos antológicos nessa turnê. Não custa nada recapitular alguns deles.
Charles Gavin e João Barone tocando “Cabeça Dinossauro” já era digno de nota desde os primeiros ensaios mas no show de São Paulo os dois resolveram radicalizar. Foi realmente mágico!
Dado Villa Lobos interpretando “Que país é esse?” em BH tampouco poderia ficar de fora dessa lista, assim como o duelo de guitarras entre Herbert, Tony e Andreas Kisser no final de “Lugar Nenhum” em São Paulo.
Outro momento difícil de sair da memória é o do refrão final de “Epitáfio” em Salvador com o público todo – incluindo quem assistia das sacadas dos prédios – acompanhando com palmas e cantando numa entrega incondicional, difícil de acontecer.
No mesmo show, Marcelo Camelo “sambando” com alegria de menino em “Alagados” também deu gosto de ver!
Para finalizar, como não poderia deixar de ser, o momento em que Arnaldo entra no palco é sempre muito especial, para nós, Titãs. Talvez mais até do que é para os próprios fãs. Vertigem pura!
Não sei como ainda há gente de imprensa capaz de classificar essa turnê como uma “volta”. No que me diz respeito, simplesmente detesto essa mania que jornalista tem de estabelecer uma pauta e depois forçar a barra para que tudo se encaixe naquela baliza. Comparar a nossa turnê com a do Police e a do Led Zeppelin ( tá certo que a companhia é boa...) como fez a Folha de São Paulo é fazer uma análise, no mínimo, medíocre. Seria o mesmo que dizer que o U2 está voltando em 2008…..Lamentável. Outro equívoco : dizer que o público é, na sua grande maioria, de quarentões saudosistas ( nada contra é claro! ). Bobagem: a verdade é que pelo menos 80% da platéia é de gente que nem sequer tinha nascido quando lançamos o primeiro disco!
Para quem não viu o show aí vai o set list completo com comentários e informações adicionais. Espero que isso aumente a vontade da cariocada de conferir dia 16 de janeiro na Marina da Glória a gravação do show para o programa da SKY. A princípio esse será o último show da turnê, mas é bem provável que mais datas apareçam pela frente. Fiquem ligados!
Titãs & Paralamas
1. Diversão – As duas bandas atacam juntas e Herbert divide os vocais com o Paulo. Está canção para quem não sabe, entre todas as nossas composições, era a favorita do Renato Russo. Quando tocamos em Ipanema na década de 90 cheguei a convidá-lo pra cantar com a gente. Ele educadamente declinou: já estava muito debilitado para encarar um show…..
2. Calibre – Novamente o Paulo divide os vocais com o Herbert. A música começa com um clima de piano elétrico alá John Paul Jones e gaita – bem diferente da versão original.
3. Marvin – Cantada pelo Branco e pelo Herbert. O arranjo é praticamente o mesmo que costumamos tocar sozinhos, apenas o solo do Tony tem o dobro do tempo.
4. Selvagem – Dessa vez eu e Herbert dividimos os vocais. Esta é talvez a mais Titânica das músicas dos Paralamas. Taí uma canção deles que poderia perfeitamente ter sido composta por um de nós.
5. Policia – Praticamente emendada em Selvagem. Em São Paulo contamos também com o auxílio luxuoso do Andreas na guitarra e nos vocais. Quando começamos a tocar o chão, literalmente, tremeu! Há muito tempo o público não reagia dessa maneira nessa música ( será que foi por causa do “Tropa de elite”?!). Lembro de que quando a tocamos numa das versões recentes do Planeta Atlântica ( a faixa etária desse festival é sempre muito baixa ) o público ficou completamente imóvel. Tive a nítida sensação de que ninguém tinha ouvido aquela música antes na vida. O mais curioso é que quando tocamos “Epitáfio” o lugar quase veio abaixo! Em SP em meio à zoeira das guitarras, nos acordes finais, ainda tive a pachorra de cantar “Acorda Maria Bonita, levanta vai fazer o café / Que o dia já vem raiando e a polícia já tá de péééééééé!!!!”
Saem os Titãs e ficam os Paralamas acompanhados de seus músicos. Curiosamente as sete canções escolhidas por eles para este segmento são extremamente pop contrastando com o nosso set, bem mais rock. O Liminha costumava dizer que os Paralamas eram mais Beatles e os Titãs mais Stones. Não deixa de ter razão…..
6. Ela disse adeus
7. De perto
8. Cuide bem do seu amor
9. Lanternas dos afogados
10. Alagados – Esse canção é uma das minhas preferidas ( imagino que de todo o mundo ) do repertório dos Paralamas. Acredito que foi ela uma das coisas que nos estimulou, mais tarde, a gravar um disco com Õ Blesq Blom ou uma música como “Miséria”. Vislumbramos alí a possibilidade de fazer pop com sotaque claramente brasileiro sem soar “frouxo”. O Charles toca um” pandeirinho” aqui!
11. Uma brasileira – Eu , Branco e Paulo fazemos backing nessa música.
12. Caleidoscópio
Voltamos a tocar juntos aqui, num momentos denominado por nós de “ a hora do banquinho”. Os arranjos ficaram bem mais despojados, diferentes dos originais. O nosso intenção era dar um refresco pra moçada e deixar espaço para que se pudesse ouvir o público cantando ( o que de fato acontece ) em alto e bom som.
13. A Novidade – Cantamos eu e o Herbert. O único acompanhamento são as guitarras as vozes e palmas do público. Nessa música, vale a pena prestar atenção no slide Guitar do Tony.
14. Homem Primata – O arranjo acabou ficando parecido com o que fizemos para o Acústico. Um SKA, só que sem metais e bem mais invocado. A platéia canta pra valer!
15. Lourinha Bombril – Versão dos PDS para uma música de uma banda argentina “Los Pericos”. O Branco divide o vocal com o Herbert, eu faço as frases dos metais no hammond e o Paulo toca…..bandolim!
Saem os Paralamas e ficam os cinco Titãs ( finalmente um número decente de membros para uma banda de rock! ). Tocar como um quinteto, fora o desafio, tem sido um grande prazer: é quase como se a banda estivesse começando de novo.
16. Epitáfio – Dispensa maiores comentários …. É um dos momentos de maior comunhão com a platéia de todo o show.
17. Aluga-se - Sempre costumo cantar “Eu nasci há dez mil anos atrás” antes de gritar “Fala Rauuuuuul!!”. Em Salvador o público cantou duas ou três vezes sem que eu precisasse fazer praticamente nada. Foi, como diria o Frejat “Puro êxtase”
18. Vossa Excelência – O João e o Bi em São Paulo foram intimados por mim a cantar com a gente o refrão dessa música. No meio do primeiro verso fui até o canto do palco e arrastei o João Barone pelo braço, que saiu gritando com vontade” Filha da puta, bandido, corrrrupto ladrão!”
19. Bichos Escrotos
20. AAUU – “Dentre as músicas estúpidas gravadas durante os anos 80 talvez está seja a mais estúpida de todas!”. Me acostumei a falar isso antes de começar a gritar. Tem gente que acha estranho….
21. Cabeça Dinossauro – Como já comentei, o João e o Charles “arrebentam” nessa música.
22. A melhor banda de todos os tempos da última semana – O Bi toca baixo e o Herbert faz um solo de guitarra. O João , a principio, não tocava nessa hora, mas acabou entrando na farra também. Faz sentido: no final Branco apresenta todo mundo. “Senhoras e Senhores com vocês A melhor banda de todos os tempos da última semana!!….Na guitarra, Tony Bellotto!” – E por aí vai.
23. Go Back – O Marcelo Camelo assume o lead vocal ( e manda muito bem! ), o Herbert faz uns comentários e eu canto o “Stir it Up”. Alguém comentou que o Camelo parecia deslocado no show…..Não concordo: entre os convidados ele era ( mesmo nos ensaios ) o mais entrosado, o mais a vontade e o que melhor conhecia o nosso repertório. Quem leva essa música é o Barone, o Charles só toca nos refrões.
24. Beco – O Mello canta essa. Tocamos com o reforço dos metais .
25. Comida – Grande momento!! Há muitos anos o Arnaldo não cantava essa música: com certeza é a primeira vez que ele canta com esse arranjo. Ainda lembro do dia em que fizemos a canção ( Marcelo, eu e Arnaldo ) na casa dos meus pais. Uma boa parte da letra o Arnaldo já trouxe pronta “A gente não que só comida, a gente quer comida diversão e arte, etc..” O resto fizemos ali na hora . “Bebida é água, comida é pasto/ Você tem fome de que? Você tem sede de que?” são versos meus. A frase de teclado fiz depois a pedido do Marcelo que achava que faltava um “gancho” melódico pra música. É um clássico dos Titãs.
26. Lugar nenhum – Outra daquelas que marcaram época na voz do Arnaldo.
27. Trac Trac – Eu divido o canto com o Herbert. Acho que ficou bem legal na minha voz, pensei inclusive em pedir para cantar a música inteira …Vamos ver, talvez ainda da role.
28. Óculos – O Paulo canta . Eu faço aquela famosa frase da intro. Um dos grandes baratos dessa turnê é esse : poder tocar coisas que a gente gosta muito e nunca teve oportunidade.
29. Sonífera ilha – Zoeira total. Aqui todo mundo toca e canta ao mesmo tempo – convidados incluídos.
30. SKA – É um rock-steady. O João puxa numa velocidade alucinante, às vezes difícil de acompanhar. O Paulo faz a frase e o “solo” de sax.
Bis
Cansei de comentar……
31. Meu erro
32. Flores
33. Cinema mudo
34. Que país é esse?
Ufa! Acabou!
Espero que tenham gostado.