SPANISH BOMBS #2
São Paulo 08/06/2007
Aqui estou eu de volta ao Brasil após dez dias em terras além mar. Daqui a algumas horas vou tocar novamente com os Titãs , num evento fechado, em São Paulo.
Os shows na Espanha foram , com certeza, especiais. Diria mais: foram memoráveis! Tocamos , em média, para 200 pessoas por noite. Apesar disso a vibração que rolou foi monumental. “Nós somos poucos mas somos muitos!” Esse, definitivamente, parece ter sido o mote da “gira” espanhola.
 Os Titãs na Plaza Mayor em Madri
A verdade é que a divulgação do evento deixou bastante a desejar. Nem mesmo os brasileiros que cruzavamos nas ruas tinham ouvido falar dos shows. Anúncios? Cartazes? Flyers? Pode esquecer! Nos dez dias que fiquei por lá não vi nada disso. Parece que o cara que foi contratado para cuidar da promoção dos shows pelo pessoal da Diversound deu um perdido na moçada.
Poucos orgãos de imprensa apareceram para a “coletiva”. Para ser exato, apenas três. “Muita gente confirmou que viria, mas na hora H não apareceu” disse Sônia. OK, no problem, já estava esperando algo assim…. Fora isso fizemos duas aparições em rádio: uma no programa do Reginaldo na rádio Circulo (que tocava a gente todos os dias durante quase uma hora) e a outra em Barcelona. Como disse, estavamos imaginando, aqui do Brasil, platéias semelhantes às da nossa turnê Americana. E embora haja 80.000 brasileiros morando na Espanha a realidade provou que lá o buraco é mais embaixo.

 Eu e Raquel, minha musa, fazendo um pouco de turismo, que ninguém é de ferro.
A falta ou pouca divulgação talvez tenha sido o único aspecto realmente negativo de toda a turnê. O resto foi absolutamente impecável. A produção da Diversound sob o comando da Sônia não deixou nada a desejar. Hoteis, passagens, som , equipamento, enfim tudo aconteceu exatamente como foi combinado.
A vontade de investir em um terreno ainda pouco explorado ( música brasileira que não carnaval ou mpb tradicional ) é altamente louvável e corajosa. O tempo todo eles nos diziam que os shows eram um investimento no nome deles, como managers, e na nossa relação futura. É o que todos queremos: poder voltar mais vezes.
Dito isso, vamos aos shows –

A casa em Madri - La Riviera - é uma das mais tradicionais da cidade - gente como Bob Dylan já se apresentou por lá! La Riviera tem um “que” que me lembra o Morro da Urca, talvez por causa do piso quadriculado, da arena ovalada e de duas palmeiras cruzadas em forma de X no meio da pista. Acabam aí as semelhanças: o lugar comporta, brincando, três a quatro mil pessoas.
Cheguei mais cedo na a passagem de som para programar o teclado (o meu não pode vir). Já me esperavam lá dois técnicos extremamente atenciosos e competentes : resolvemos tudo em meia hora. Duas horas mais tarde, depois que cada um de nós se deu por satifeito, deixamos o palco: o som estava perfeito.
Os shows na europa , assim como nos USA, costumam começar no máximo até 22:00 hs. Eu, sinceramente, prefiro assim. Acho que a gente rende mais. O próprio público parece estar mais energizado nesse horário.
Quando pisamos no palco o calor e vibração da galera tomou conta de todos os cantos da casa. Atacamos A Melhor Banda de todos os tempos da última semana, como de costume, e em seguida AAUU. “Boa noite brasileiros em Madri! Hoje vamos fazer o possível e o impossível para que você não sintam saudades do Brasil!”
 Plaza de Catalunya, Barcelona
E assim foi –
1. A melhor banda de todos os tempos da última semana 2. AAUU 3. Domingo 4. Aluga-se 5. Flores 6. O portão 7. Diversão 8. Mentiras 9. Anjo Exterminador 10.Go Back 10. Pra dizer adeus 10. Provs de Amor 11.Epitáfio 12. Cabeça dinossauro 13. Bichos escrotos 14. Nem sempre se pode ser deus 15. Policia 16. Vossa Excelência 17.Comida 18. O Pulso 19. Lugar nenhum 20. Homem Primata 21. Sonífera ilha
22. Enquanto houver sol 23.Isso
Tivemos que encerrar o show antes de acabar de tocar o set list que haviamos programado. Por lei não podiamos passar de certo horário.
Saímos em êxtase do palco. Som bom e platéia vibrante é tudo o que a gente precisa. Fodam-se os números!
Algumas figuras que conhecemos nesses dois dias de Espanha apareceram no camarim: Ramón do grupo Los Secretos (muito populares na Espanha nos famigerados anos 80) com quem falei ao por telefone ao vivo quando estava no rádio; Carlos Anglada colecionador de música brasileira e fanático por João Gilberto; Reginaldo, acompanhado de seu otimismo delirante; Rosana , amiga da Deyse e empresária do grupo Hueco; muitos fãs e gente com saudade do Brasil.
No segundo dia a carga de adrenalina foi maior ainda e como começamos mais cedo, dessa vez, o público acabou ouvindo um set list um pouco maior. Tocamos também Marvin , 32 dentes e É preciso saber viver.
No backstage figurinhas repetidas e algumas novidades. O pessoal da organização do Rock in Rio compareceu em peso - em 2008 o festival vai ser na Espanha – brasileiros e espanhois, todos chapados com o show. Havia estudantes, dançarinas, gente de todos os lugares do Brasil e da europa. Ah, esqueci de contar: a tradutora contratada para nos acompanhar, Camilla, foi professora do meu filho, José no pré-primario. Vejam só: small world, indeed…
Escrito por Sérgio Britto às 08h23
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JOÃO GILBERTO
Carlos Gonzáles Anglada, o colecionador de quem falei, é completamente apaixonado pelo João Gilberto. Chega a ser poética a maneira como ele fala da bossa nova. Como amanhã dia 10/06/07 o “mestre” João faz 76 anos de idade, resolvi publicar aqui a carta que o Carlos escreveu contando a história de um de seus “tesouros” e a foto do mesmo. Inevitável não traçar um paralelo entre Tom e João e os grandes mestres da pintura moderna.

78 rpm. Chega de Saudade / João Gilberto odeon14360
Com o passar dos anos, as imagens tornam-se (na maioria das vezes) distorcidas e borradas, mas curiosamente, guardo na minha memória de forma nítida, quando e onde escutei pela primeira vez João Gilberto. Neste exato momento, fiquei paralisado..., emocionado..., enfeitiçado.... Aquela nova batida de violão acompanhada de seu tom de voz, produziu em mim, uma sensação hipnótica tão especial, que desde aquele preciso instante, fiz da Bossa Nova a filosofia e a tese musical da minha vida. Desde então, prometi a mim mesmo, ter um claro objetivo : ”Conseguir obter fisicamente o vinil original que historicamente deu inicio a tudo...“, aquela Obra Maestra antiga e rara da gravadora carioca Odeon com nº. de serie 14.360, que foi editada em Julho de 1958 em formato de 78 rpm. Por causa da minha ansiedade e o fanático desejo de ter o disco imediatamente em minhas mãos, corri demasiados riscos desde a sua compra efetuada no Rio de Janeiro, transporte, até a sua entrega no destino final. E por aqueles caprichos que tem o destino, odeon14360 chegou a Madrid quebrado. Ao abrir a cuidada embalagem, a estrutura rígida do vinil se desfez em minhas mãos, como se desmaiasse... Trêmulo desembrulhei a última parte, com a crua sensação de quem havia perdido um “filho” em um acidente de trânsito. Enorme tristeza... Choramos os dois (ele conhecia minha grande paixão...). Seu lado A “Chega de Saudade” em cruel ironia olhava pra mim fixamente como me pedindo perdão por ter chegado naquele lamentável estado físico. Depois de tantos esforços, viagens e anos de espera, odeon14360 chegava partido em 10 pedaços ! Passado o “choque” e a tremenda dor inicial, pensei que em realidade, ali diante de mim eu tinha por fim a comprovação real de sua existência, o vinil que sempre amei. E resolvi emoldurá-lo entre sedas vermelhas e ouro, como ele merece !! Aqui está o vinil original ”odeon14360“, que mostra com orgulho, que sempre teve no interior de seus microssulcos um Samba diferente, uma música nova e desconhecida que mudou tudo na MPB, influenciando decisivamente no Jazz, e posteriormente conquistando o resto do Mundo. Madrid, 10 Junho 2007
Carlos Anglada ~
Nota : Gratidão eterna a João Gilberto pelas emoções sentidas, e dizer que sem você, João, esta História não existiria.
Semana que vem falo sobre Barcelona Abs!
Escrito por Sérgio Britto às 08h22
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