Leituras de verão

A pintura acima é o “A virgem do chanceler Rolin” de Jan Van Eyck.
O CONHECIMENTO SECRETO (David Hockney)
Editado no Brasil pela Cosaq& Naïf e magnificamente ilustrado, “O conhecimento secreto” de David Hockney (artísta plástico inglês) é um livro deslumbrante.
A tese central de Hockney é a de que muitos dos grandes mestres da pintura renascentista ( Caravaggio, Van Eyck, Ingres, entre outros) em meados do século XV - ou seja muito antes do advento da fotografia, tal como a conhecemos (1839) - já usavam recursos ópticos para realizar obras que encantam e causam perplexidade, pelo apuro técnico, até os dias de hoje.
O interessante é que, a idéia em si - tal como a coloca Hockney - não é desabonadora para nenhum dos grandes mestres em questão. Hockney não deixa dúvidas de que mesmo contando com lentes, espelhos, etc, tais trabalhos são dificílimos de realizar para qualquer pintor, em qualquer época: “só a mão humana impreme marcas”.
Não tira o mérito, é verdade, mas desmistifica (de certa forma) a figura do artísta iluminado por deus - com capacidades muitíssimo acima do comum dos mortais - e também educa o nosso olhar a identificar esse tipo de recurso em um sem número de pinturas.
Muito revelador, também, é saber que essa prática era extremamente disseminada entre pintores, mas guardada com sigilo para que não fosse conhecida pelos “não iniciados”.
O livro está dividido em três partes : prova visual, prova documental e correspondência. Abaixo um passagem bastante curiosa de Roger Bacon citada por Hockney – que nos leva a refletir sobre o valor e o perigo que implicava deter certo tipo de conhecimento naquela época.
Será que hoje ainda não é um pouco assim?
“Antes de tudo, considero que não se deva falar sobre os segredos da natureza […] sob pena de todos ficarem sabendo. Asim querem Sócrates e Aristóteles, pois este afirma em seu livro dos segredos que rompe o selo celestial, aquele que torna comuns os segredos da arte e da natureza, acrescentando ademais que muitos males sucedem a quem revele segredos.[…] Em coisas próprias, pois, e em segredos, a gente comum erra, e nesse respeito é oposta ao letrado […] Ora, a causa desse sigilo entre a gente sábia é o desdém e negligência dos segredos da sabedoria pelo tipo vulgar, que não sabe usar essas coisas que são das mais excelentes. E se eles julgam valiosa alguma coisa, é inteiramente por sorte e acaso, e abusam em excesso desse seu conhecimento, para grande prejuízo e dano de muitos homens, de sociedades inteiras mesmo: de modo que pior que louco é quem publica qualquer segredo, a menos que oculte da multidão, e de tal modo o transmita que mesmo o estudioso e letrado o compreenda a custo. Essa tem sido a conduta que gente sábia tem observado desde o início, e que, por meios vários, tem ocultado os segredos da sabedoria da gente comum.”
Está é uma leitura que, com certeza, muda a maneira que temos de apreciar arte.
O MENINO E O ESPELHO (Fernando Sabino)
Juntos, eu e o José (meu filho de 8 anos) traçamos “O menino no espelho” do Fernando Sabino, de quem, devo admitir, nunca havia lido absolutamente nada. É um pequeno romance de reminiscências de infância muito divertido de ler. Nas palavras do autor: “ proezas, aventuras, peripécias, tropelias (e algumas lorotas) do tempo em que eu era menino”. Confesso que nos divertimos à beça e, mais de uma vez, tivemos que interromper a leitura para gargalhar das traquinagens do Fernando - ou seria Odnanref ? Leitura altamente recolmendavel para crianças de 8 a 80. Despertou em mim a vontade de ler outras coias do mesmo autor. Pelo menos “ O Grande Mentecapto’. Alguém aí conhece?
A LINHA DA SOMBRA (Joshep Conrad)
Li também “A linha da sombra” de Joshep Conrad grande estilista da língua inglesa, admirado, entre outros, por H. G. Wells e Jorge Luis Borges. Hans Jozef Teodor Konrad era Ucraniano e publicou pela primeira vez somente aos 38 anos de idade. Curiosamente diz-se que Conrad nunca chegou a dominar completamente, falando, a língua em que escrevia….
O enredo do romance é , resumidamente, o seguinte -
Um jovem imediato é indicado (como resultado de uma série de acasos) para comandar um velho navio mercante atracado em Bancoc (Tailândia) de volta ao porto de origem. As dificuldades impostas pela travessia (tempestades, calmarias, doenças, tédio, incertezas, etc) levam a tripulação do barco ao quase aniquilamento e servem como metáfora do rito de passagem entre juventude e maturidade ao qual o jovem capitão se vê repentinamente submetido. A sensação de estagnação, desilusão e extrema dificuldade que permeia boa parte da narrativa funciona perfeitamente como alegoria do ingresso na vida adulta.
Borges dizia (isso eu li no prefácio, é claro!) que Conrad tinha uma capacidade rara para criar personagens próximos aos dos heróis de tragédia…..Curiosamente, por coincidência, ganhei de presente de natal uma HQ do Corto Maltese do Hugo Pratt, personagem criado, Segundo o próprio autor, nos mesmos moldes dos que vemos nos livros de Stevenson e Conrad. Quem aprecia o personagem impassível, cético e com uma queda acentuada pela magia de Pratt talvez possa vir a interessar-se também pela literatura de Joshep Conrad.
Escrito por Sérgio Britto às 15h54
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