CAPA E PRESS RELEASE
Aí em baixo a capa do cd e o press release que o Zeca Baleiro fez para o “ Eu sou 300”. Em geral esse tipo de texto não chega ao público: é usado exclusivamente para a imprensa. Sendo o autor quem é, achei que deveria postar aqui. Espero que, como eu, gostem não só do texto mas também do cd em questão.
O cd já está na pré-venda do submarino!
Abraço

Um Samba-Enredo Rock´n´Roll (“Eu Sou 300” - Sérgio Britto)
Uma das vozes fundadoras da banda Titãs, na comissão de frente da cena rock nacional desde os seus primórdios, Sérgio Britto agora tira da manga o cd “Eu Sou 300”, cujo título tomou emprestado do poema homônimo de Mário de Andrade.
Já tendo se aventurado em projetos paralelos ao trabalho da banda, como os cds “Con el mundo a mis pies“ do “Kleyderman” (trio com Branco Mello e Roberta Parisi, de inspiração punk) e “A Minha Cara” (primeiro vôo solo, de 2000), Sérgio mostra sua faceta mais autoral neste novo disco, recheado de melodias cativantes, refrões de apurado sabor pop e riffs que colam na memória desde a primeira audição.
Sem perder o approach roqueiro que consagrou sua banda (da qual ainda é um dos mais prolíficos compositores), Sérgio aqui dá-se a liberdade de trilhar por outras sendas musicais nunca dantes trafegadas. Assim, acentos sutis de samba e soul cintilam aqui e acolá no cd, bem como nuances de percussão brasileira, sem que isso chegue a caracterizá-lo como um trabalho de fusão de ritmos e gêneros, prática tão em voga na música brasileira desde o início dos anos 90. Feito em ambiente caseiro, com poucos músicos e entre amigos, o disco conta com arranjos simples, despojados e nem por isso menos originais, da lavra do próprio e do excelente guitarrista Emerson Villani (também produtor do cd), colaborador dos Titãs e integrante da banda Funk Como Le Gusta.
O mesmo tom “familiar” se faz notar nas canções que Sérgio dedica à mulher, a bela e radiofônica balada “Raquel (D.D.D.)”, e ao filho, o suave acalanto com ares jobinianos “José”, com a qual ele encerra o disco tocando um piano que simula uma pianola de brinquedo.
Isso não quer dizer que não há lugar também para canções mais raivosas ou incisivas. O berro rock’n’roll está lá, em “Anticorporativa” e “Agora eu Quero a Verdade”, tomadas de acidez crítica, a primeira aos tempos pós-modernos e globalizados, e a segunda ao nosso atual (e triste) quadro político, com seus emblemáticos versos: “conheça o novo presidente, igual ao velho presidente...”. Nesta canção, Britto parodia (e subverte) a “Ideologia” de seu contemporâneo Cazuza: “meus heróis estão no poder / meus inimigos não são quem eu pensava ser... basta estar vivo pra poder viver”.
Uma das maiores razões da força deste trabalho reside nas letras das canções. Seja na lâmina fina dos versos “eu sou o mundo domingo à tarde ... / eu sou um prédio em frente ao parque” (em “Um Novo Samba-Enredo”) ou na atmosfera algo beatnik de “antes da chuva cair / antes do Natal / logo ao primeiro sinal / antes do último cigarro” (em “Café Expresso”), Britto escancara sua verve de poeta de maneira despretensiosa, e por isso talvez tudo soe tão certeiro.
Sérgio abre o disco em grande estilo, com o rock-balada “São Paulo (Cosmópolis)”, cuja veia “tropicalista” acaba por remeter à poesia de Torquato Neto, de quem ele já musicou poemas com bastante propriedade (vide as canções “Go Back”, “O Bem, O Mal” e “Daqui pra Lá”). Versos como “entre prédios e avenidas/ pernas, bocas coloridas … vida ainda e morte igual / sol e chuva industrial no Brasil” poderiam tranquilamente ter saído da pena inspirada do bardo piauiense.
Rumores tropicalistas ainda ecoam em “Já Dizia Rogério Duarte”, curiosa ode ao artista que foi um dos grandes gurus da Tropicália. A citação melódica de “Tropicália”, e a citação textual de “Alegria Alegria” (“o sol nas bancas de revista”) contextualizam a irreverente homenagem.
Nem toda canção precisa de um refrão para ser boa, mas que um bem urdido refrão é sempre bem-vindo, ah isso é. Que o diga “Vem Andar Comigo”, um clássico instantâneo, em parte devido ao saboroso refrão - “vamos andar, as cores estão tão vivas”. Ou o suingado mantra de “O Ritmo do Seu Coração” (“é só o ritmo, o ritmo do seu coração”).
As parcerias “Na Linha do Horizonte”, com o titã de primeira hora Arnaldo Antunes, de primorosa melodia, e o samba torto “Nós”, feita a quatro mãos com o poeta Carlos Rennó, completam o disco. E fechando o balaio, a divertida “Chulapa Free”, homenagem à malandragem boleira de Serginho Chulapa, tirada do repertório da banda santista Tiroteio, de quem os Titãs já haviam gravado “Eu Não Agüento”, um dos hits do cd “Domingo”, de 1995
Dosando lirismo e contundência na medida certa, a bordo de sua nau solitária e carregado de boa munição, Sérgio chega ao segundo disco disposto a colar seu cartaz nos muros da música brazuca deste novo século com distinção. A julgar pelo engenho, talento e punch à mostra neste “Eu Sou 300”, haveremos de ver seus out-doors espalhados por aí.
Zeca Baleiro (SP, setembro de 2006)
Escrito por Sérgio Britto às 15h41
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