Cabeça Dinossauro 1

Eis aí uma entrevista que fiz ( há um bom tempo ) para a Folha de São Paulo sobre o “Cabeça Dinossauro”. Como não sei se vai ser publicada ou não, resolví colocar aqui. Outra coisa : - de agora em diante vou tentar responder aos comentários de vocês em baixo dos mesmos, OK? Vamos ver se assim funciona melhor.
Espero que gostem!
- Antes de "Cabeça Dinossauro", vocês lançaram dois discos mais voltados para o "pop". Por que a mudança de sonoridade em "Cabeça Dinossauro"? O que levou a essa nova experiência sonora?
Não foi assim tão de uma hora pra outra como pode parecer. Era algo que já vinha acontecendo. Por exemplo : “Bichos escrotos” é anterior à gravação do nosso primeiro disco, só não gravamos naquela ocasião por que a censura não permitiu. No disco anterior ao “Cabeça” - “Televisão” - a faixa título , “Massacre”, “Pavimentação”e “Autonomia”já apontavam também para essa direção . “Babi índio” e “Pule “do primeiro disco, se tivessem sido gravadas com um pouco mais de qualidade , também poderiam ser vistas desse modo. Fazer um disco com uma sonoridade e um repertório mais pesado era um desejo antigo de alguns de nós que aos poucos contaminou todo mundo. A prisão do Arnaldo e do Tony e conseqüentemente o relativo fracasso de “Televisão” são fatores extra-musicais que naquele momento talvez também tenham contribuído para essa virada.
- Vocês tiveram medo de uma recepção fria por parte dos fãs e da imprensa por conta da mudança?
Medo não. Estavamos muito convictos e a gravadora parecia acreditar na gente, mas houve sim alguma resistencia inicial da mídia . Algumas pessoas da imprensa levaram muito tempo para entender e valorizar o disco que fizemos.
- Quanto tempo durou a gravação do disco?
Um mês para gravar e mixar. Em duas semanas já estava quase tudo pronto.
- Qual a importância que Liminha teve para esse projeto?
O Liminha foi o responsável pela realização do nosso maior sonho : gravar com qualidade, liberdade e em altíssimo astral. No que diz respeito à parte estritamente musical ( fora “O que” e “Familia” que tiveram os arranjos reestruturados ) tudo já estava pronto há um bom tempo . As canções , os arranjos e até mesmo o formato das músicas já estavam definidos muito antes de entrarmos em estúdio.
- Qual foi a primeira música do disco a ser gravada? E a última? Qual foi a que demorou mais?
A primeira ,foi “AAUU”. Já tocavamos a música em shows e o arranjo estava muito bem resolvido. A última a ser gravada foi “O que” e foi também a que mais deu trabalho. O arranjo mudou totalmente no estúdio e o Liminha , aqui, teve participão decisiva : programou a bateria eletrônica , sugeriu a linha de baixo , tocou guitarra e deixou a gente fazendo uma “Jam”interminavel durante dois dias até a chegar ao resultado final. Aquilo abriu um novo horizonte para nós e nos colocou em contato com elementos que iríamos explorar bastante nos anos seguintes.
- Quais foram as principais influências da banda para a gravação desse disco?
A canção brasileira sempre foi uma forte influência para nós. De Noel Rosa a Mutantes. O punk rock e a new wave também. É dificil apontar um só artísta ou um só estilo. A diversidade sempre foi a nossa marca registrada.
Escrito por Sérgio Britto às 16h22
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Cabeça Dinossauro 2

- E qual foi a influência que "Cabeça Dinossauro" teve na sonoridade da banda até os dias de hoje?
Já fizemos muita coisa e não somos mais só “a-banda- do-Cabeça- Dinossauro”.”Õ blesq blom” tem outras características mas foi , para nós, tão marcante quanto. Fora isso há o “Acústico” as fases de “Sonífera ilha”, “Comida”, “Epitáfio” , etc, etc. Apesar disso devo confessar que quando falamos em fazer um arranjo ou uma canção alá TITÃS é sempre no “Cabeça “que pensamos . Foi lá que inventamos o nosso vocabulário.
- Houve uma sensível mudança nas letras desse disco em comparação com os anteriores. Em faixas como "Polícia" e "Bichos Escrotos", as letras estão bem mais politizadas. Por que essa mudança nas letras das músicas?
Não sei se “politizadas”é o termo exato. …..Ácidas , agressivas - críticas talvez? - Como disse, pode até parecer , mas não foi de uma hora pra outra que isso aconteceu. Esses elementos sempre existiram na nossa música só não haviam sido registrados ou não haviam sido , até então , tão bem realizados. Quer exemplos? Uma das primeiras músicas do nosso repertório era “Charles Chacal”que falava de um seral killer. Dessa safra também fazia parte“Vá trabalhar”, que dizia : “Vá se enfeitar,pinte a boca ponha falsos cílios/Você quer se matar,você já tá pra lá de a perigo/Esse buraco aonde você se enfiou, esse buraco foi você quem cavou / Sua casa o seu ninho de amor” .
- Quando lançaram o disco, vocês tinham alguma idéia de que ele iria marcar tanto o "Rock Brasil"?
Não, a gente não fazia mínima idéia do que iria acontecer, mesmo porque , até aquele momento, nós éramos vistos como uma espécie de patinho feio do Rock brazuca.
- Vocês mudariam alguma coisa no disco?
Não! Tá louco!
- Vocês consideram "Cabeça Dinossauro" o melhor disco da banda? Consideram o mais influente? Quais artistas você acha que claramente foram influenciados pelos Titãs?
Com certeza é um dos melhores que fizemos. Só comparavel ao “Õ blesq blom” e “Jesus não tem dentes no país dos banguelas”. Acho que não posso apontar nenhuma banda que pareça ter sido diretamente influenciada por nós. …. Em contrapartida “O blesq blom “ - se não influenciou - ao menos antecipou toda a onda do mangue beat e a mistura de MPB e música nordestina com elemetos de rock e programações eletrônicas.
- O que acham do disco "Dois", da Legião Urbana?
Acho que dentro da discografia deles equivale ao “Cabeça” com uma sonoridade mais redonda ( guitarras limpas e canções mais melódicas em vez da gritaria e dos riffs distorcidos do nosso). É também um grande disco e “Índios” uma obra prima do pop rock brasileiro . Uma das canções mais originais da Legião Urbana.
- O que acham do disco "Selvagem?", dos Paralamas?
Quando entramos no Nas nuvens para gravar o “Cabeça “ os Paralamas haviam acabado de sair de lá. O disco que eles tinham gravado era , sob vários aspectos, diametralmente oposto ao que iríamos fazer . O tempo acabou provando que há muito mais semelhanças que diferenças entre as duas bandas, principalmente na maneira de encarar o desafio de fazer música pop no Brasil sem ser mera cópia do que se faz lá fora e ao mesmo tempo sem ser bovinamente brasileiro. A nossa vontade sempre foi tentar ser - por mais estranho que possa parecer - “profundamente brasileiros “ como Raul Seixas , como a jovem guarda, como a bossa nova, como os tropicalistas e acho que nesse sentido os Paralamas são a banda que mais se parece com os TITÃS. “Selvagem” é com certeza um clássico.
- Há mais alguma curiosidade, detalhe sobre a gravação do disco que você acha interessante contar?
Os acetatos com os esboços do Leonardo da Vinci que estão na capa e na contra capa do disco vieram diretamente do Louvre trazidos por um amigo do meu pai. Antes disso tudo o que tinhamos eram reproduções pequenas e sem qualidade suficiente para viabilizar o projeto gráfico. As primeiras 30.000 cópias do disco foram feitas em um papel fosco e poroso muito mais caro que o normal. Generosidade do André Midani, entãopresidente da Warner, que nos deu total apoio antes, durante e depois da gravação atendendo a tudo o que pediamos.
A percussão na faixa “Cabeça dinossauro” foi o Liminha que tocou. Depois de várias tentativas mais elaboradas ele começou a improvisar - tocando nas paredes, no chão e nas colunas do estúdio - numa espécie detranse. Assim que ele acabou , todo mundo disse imediatamente : é isso aí, docaralho!
Gravei a voz solo de “Polícia” no primeiro” take” enquanto o Liminha conversava sobre pesca submarina com o Evandro Mesquita ( talvez isso tenha me ajudado a ficar mais puto ainda ) . Quando fomos ouvir o resultado eu queria regravar a voz a qualquer custo ( tinha sido muito fácil ), mas todos acabaram me convencendo de que estava bom.
A voz de “A face do destruidor” foi gravada em cima da base tocada de trás pra frente. Quando gravamos tinhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira.
O Tony fez todos os solos importantes do disco usando uma técnica no mínimo curiosa : revezava um anel grande que ele tinha na mão direita com a palheta para tocar e ao mesmo tempo tirar efeitos percussivos da guitarra. Isso funcionava também como uma espécie de bottle neck e acabou dando uma cara diferente para os solos que ele fez .
Escrito por Sérgio Britto às 16h18
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