UM POEMA E DUAS CANÇÕES
  
Carlos Drummond de Andrade Alguma poesia/1930 Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
Flor da idade Chico Buarque/1973 Para o filme Vai trabalhar vagabundo e para a peça Gota d´água de Chico Buarque e Paulo Pontes
A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia Pra ver Maria A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia A porta dela não tem tramela A janela é sem gelosia Nem desconfia Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família A armadilha A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha Que maravilha Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua A gente sua A roupa suja da cuja se lava no meio da rua Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua E continua Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
Sérgio Britto A minha cara/2000 Carrosel Ana, que teve um filho com Pedro, era irmã de Guilherme Que era tio de Carlos Marta, sogra de Paulo Roberto, melhor amigo de Claudia Era amante de Mauro Nando que é neto de Elias e está noivo de Bruna Se dá muito bem com os pais Lucas, irmão mais novo de Laura, que é nora de Marcelo Já não namora mais
Vânia gosta do primo de Nelson que é genro de Ricardo Cunhado do seu Cazé Théo, afilhado de Isabel que é mãe de Eduardo Só teve uma mulher Lygia, que é madrinha de Heitor, encontrou seu grande amor E casou mais uma vez Cassia, filha adotiva de Marcia, bebeu além da conta E nem deu conta do que fez
João, André, Roberta, Maria São novas histórias de amor Novas histórias de amor acontecem todo dia Dináh, José, Letícia, Antônio São tantos os nomes do amor Tantos os nomes do amor: – Quantos cabem nos seus sonhos?
Vera é avó de Fabiana, viúva de Marco Aurélio Que adorava as duas filhas Hélio, que tinha filhos e esposa e não gostava dessas coisas Abandonou a família Sílvia, que agora está com Rubens, já teve três namorados E ainda pensa em Raul Rita, separada de Raí, saía toda noite e ia com qualquer um
João, André, Roberta, Maria São novas histórias de amor Novas histórias de amor acontecem todo dia Dináh, José, Letícia, Antônio São tantos os nomes do amor Tantos os nomes do amor: – Quantos cabem nos seus
Um poema e duas canções
O poema é de Carlos Drummond de Andrade e faz parte do seu primeiro livro intitulado “Alguma poesia”lançado em 1930.Livro este , aliás , dedicado a Mario de Andrade ,amigo e na época mentor. É com certeza um trabalho seminal: - referência para quase tudo o que se produziu de poesia posteriormente no Brasil.Alguns poemas - por assim dizer - “ ficaram” e já fazem parte do subconsciente emocional do brasileiro. ”Poema de sete faces” ( Quando nasci um anjo torto…)”No meio do caminho”,”Política literaria”,”Cota zero” e “Quadrilha”entre outros eram e são até hoje sinônimo de modernidade e inventividade poética.
Quadrilha é genial ,e como toda boa poesia ( seus versos são livres,brancos,mas cheios de musicalidade e ritmo ) condensa,sugere muita coisa com poucos elementos. Fala de amor sim,mas sem ilusão,com alguma amargura e uma boa dose de humor. Esse amor é um amor não correspondido que pede e anseia sempre pelo que não tem ou pelo que não pode ter.É um amor que gira numa ciranda imaginária enquanto o tempo e o acaso vão embotando,embaçando,triturando - sem nenhum critério - o próprio cerne do seu ser. Dramático não? É ,mas o poema não é bem por aí….Nele nada é dito em tom de lamúria.É tudo direto,ácido,seco : - o século XX já pedia que fosse assim.
Chico Buarque foi muito influenciado por Drummond e em várias ocasiões deixou isso bem claro.Citacões e mesmo canções inteiras diretamente derivadas dos poemas de Drummond podem ser facilmente encontradas na sua obra. A estrofe final de “Flor da idade” é uma variação do tema de “Quadrilha”. O poema bem como o autor do poema são citados nominalmente em um verso da canção numa espécie de brincadeira : - “Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha”. Conheço a música de uma gravação feita ao vivo em 1975 cantada por ele e pela Maria Bethania. A canção trata ,em parte,do mesmo tema que o poema de Drummod - o despertar da sensualidade ou da sexualidade - abordado de outra maneira. Aqui já há a sugestão de um entrelaçamento dos sujeitos em questão em mais de um tipo de vínculo amoroso .São laços de qualidades diferentes sejam eles correspondidos ou não.É mais leve que o poema do Drummod e nada amargo.Tem na verdade um caráter claramente celebratório,
Para finalizar há a minha versão da mesma idéia .”Carrossel”é do meu primeiro cd solo lançado em 2000.O próprio título da canção já sugere bem qual vai ser o meu enfoque. Esse meu carrosel,assim como todos os outros ,não só gira em torno do próprio eixo mas também sobe e desce em momentos distintos…….Passa pelo mesmo lugar em alturas e de maneiras diferentes. Toda e qualquer relação amorosa cabe agora aqui : - os entrelaçamentos,as situações amorosas são as mais variadas possíveis.É um verdadeiro emaranhado de relações afetivas. O “tom” é um pouco diferente do dos outros dois textos .Há para começar a constatação da diversidade e da força do impulso amoroso: “São novas histórias de amor - novas histórias de amor acontecem todo dia” e a sugestão,a quase incitação à experimentação ,o convite ao deleite contidada na pergunta “São tantos os nomes do amor - quantos cabem nos seus sonhos? Está subentendida nessa pergunta uma provocação ,um desafio,uma aproximação que amplia o sentido do texto em direção à platéia,ao público,ao leitor.
Enfim,acho que – sem nenhuma modéstia – na comparação com os dois mestres não me sai de todo mal…..Mesmo só no papel”Carrossel” é muito bem resolvida. Como já disse mais de uma vez acho que esta canção ( “Carrossel”),”Os olhos do sol”,”Pensamento#2”e “O bem ,o mal”são para mim as melhores do meu primeiro cd.Tenho até vontade de um dia ragravá-las ao vivo…. É isso.
Abraço!
Escrito por Sérgio Britto às 11h57
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